Estudos recentes mostram que ranquear bem no Google não garante mais citação nas respostas de IA. Entenda o que isso muda no orçamento de marketing da sua empresa.
Durante quase duas décadas, o objetivo de qualquer investimento em SEO foi claro: aparecer nas primeiras posições do Google. Essa lógica está deixando de funcionar como termômetro de sucesso, e a mudança não é sutil. Um estudo publicado pela Ahrefs em março de 2026, analisando 863 mil palavras-chave e mais de 4 milhões de URLs citadas em respostas de IA, encontrou que apenas 38% dessas citações vêm de páginas que estão entre as dez primeiras posições do ranking orgânico. Em julho de 2025, uma análise equivalente havia encontrado 76%.
Isso não é um detalhe técnico de SEO. É uma pergunta de orçamento: se a métrica que sua empresa usa para medir sucesso em marketing digital (ranking, cliques, tráfego orgânico) está perdendo capacidade de prever o que realmente gera visibilidade, o próximo real investido pode estar sendo direcionado para o problema errado.
O que está acontecendo agora
Segundo dados de janeiro de 2026, os AI Overviews do Google (os resumos gerados por IA que aparecem no topo da busca) já estão presentes em 25,8% de todas as pesquisas feitas nos Estados Unidos. Entre buscas informativas, esse número sobe para 39,4%; entre buscas de e-commerce, cai para 4%.
O efeito sobre o clique é mensurável e consistente entre estudos independentes. A Ahrefs, analisando 300 mil palavras-chave, encontrou queda média de 34,5% na taxa de cliques quando um AI Overview aparece na página de resultados. Uma análise mais recente da mesma empresa, feita em dezembro de 2025, foi além: a taxa de cliques da primeira posição orgânica caiu 58% quando há um AI Overview, saindo de um patamar esperado de cerca de 7,3% para algo perto de 1,6% na prática.
O Pew Research Center chegou a um número parecido observando comportamento real de usuários, não apenas dados de ranking: em sessões de busca com AI Overview, apenas 8% dos usuários clicaram em algum resultado tradicional, contra 15% nas sessões sem esse resumo. Uma redução relativa próxima de 47%.
Por que os números variam tanto entre os estudos
Se você comparar essas pesquisas lado a lado, vai notar que os percentuais de queda oscilam bastante: 34%, 47%, 58%. Isso não significa que os estudos se contradizem. Significa que estão medindo fatias diferentes de um mesmo fenômeno.
A Semrush, em parceria com a Datos, rastreou mais de 10 milhões de palavras-chave antes e depois de passarem a exibir AI Overview e encontrou algo mais moderado: a taxa de “zero clique” (buscas em que o usuário não clica em nada) foi de 33,75% para 31,53% no conjunto total. Um recuo bem menor do que os números mais alarmantes sugerem.
A explicação está no tipo de busca. Consultas transacionais sofrem mais: quando o Google identifica intenção de compra, chega a exibir até três grades de produtos na mesma página, ocupando 40% a 50% do espaço, e os resultados orgânicos tradicionais ficam com 10% a 15% dos cliques restantes. Já em buscas informativas o efeito é mais variável, e categorias como notícias de última hora tiveram volume de cliques crescendo 103% entre novembro de 2024 e o início de 2026.
Na prática: o quanto sua empresa é afetada depende do tipo de busca que gera a maior parte do seu tráfego hoje. Um e-commerce e uma consultoria B2B estão vivendo versões bem diferentes dessa mudança.
A virada que ainda passa despercebida: ranquear bem não garante mais ser citado
O dado mais relevante para quem decide orçamento talvez não seja a queda de cliques, e sim o que os estudos da Ahrefs revelam sobre como a IA escolhe quem citar. Em julho de 2025, 76% das citações em AI Overviews vinham de páginas que já estavam entre as dez primeiras posições do Google. Em março de 2026, menos de oito meses depois, esse número caiu para 38%.
Isso quer dizer que a lógica de otimização que funcionava para ranquear (a que a maioria das agências e times de marketing ainda usa como referência) está cada vez mais desconectada da lógica que determina quem é citado dentro da resposta de IA. Estrutura clara em H2 e H3, resposta direta logo no início do texto, dados próprios, tabelas, blocos de perguntas e respostas com marcação técnica (schema) e autoridade temática construída ao longo de vários conteúdos relacionados pesam mais do que pesavam antes. Posição no ranking sozinha deixou de ser garantia de nada.
Para quem aprova orçamento, o ponto prático é este: uma empresa pode estar pagando por SEO tradicional e continuar invisível nas respostas de IA, porque são dois jogos com regras cada vez mais distintas, mesmo competindo pelo mesmo espaço de busca.
Por que isso é um problema de orçamento, não só de SEO
O Gartner CMO Spend Survey 2026, que ouviu 401 líderes de marketing na América do Norte e Europa entre janeiro e março de 2026 (a maioria de empresas com receita acima de US$ 1 bilhão), mostra um cenário de recursos apertados. O orçamento médio de marketing subiu para 7,8% da receita da empresa em 2026, contra 7,7% em 2025, uma recuperação quase simbólica depois de uma queda de 18% em relação a quatro anos atrás.
Ao mesmo tempo, os CMOs já destinam em média 15,3% do orçamento de marketing para iniciativas de IA. Entre as empresas que o Gartner classifica como preparadas para IA, essa fatia sobe para 21,3%, e essas mesmas empresas reportam orçamentos totais maiores (8,9% da receita, acima da média geral de 7,8%).
Esses números são de empresas grandes, e a proporção muda para uma PME. Mas a direção da seta é a mesma para qualquer porte de negócio: o mesmo orçamento (ou um orçamento que cresce pouco) está sendo cobrado para cobrir uma frente nova de visibilidade, sem que o total de recursos disponíveis aumente na mesma proporção. Some isso à queda estrutural de cliques orgânicos descrita acima, e fica claro por que o investimento que antes se justificava só com ranking e tráfego precisa de um jeito novo de ser medido e defendido internamente.
Perguntas que valem a pena levar para a próxima reunião de orçamento
Antes de aprovar o próximo ciclo de investimento em marketing digital, algumas perguntas ajudam a entender se sua empresa já está sentindo esse efeito:
Quanto do nosso tráfego orgânico hoje vem de buscas que já mostram AI Overview, e como isso mudou nos últimos doze meses?
Nossa agência ou time interno mede sucesso só por ranking e taxa de cliques, ou já acompanha menções e citações em respostas de IA como métrica própria?
Nosso conteúdo está estruturado de um jeito que facilita ser citado (resposta direta, dados próprios, estrutura clara), ou só de um jeito que facilita ser encontrado?
Quais das nossas páginas mais importantes dependem de um tipo de tráfego que pode continuar encolhendo, e o que substitui esse tráfego se a tendência se mantiver?
O que muda na prática
Aparecer no Google deixou de significar uma coisa só. Por anos, essa frase queria dizer “estar na primeira página”. Hoje, para uma fatia cada vez maior das buscas, significa “ser a fonte que a IA escolhe citar”, e os dois objetivos não se sobrepõem tanto quanto pareciam há um ano.
SEO continua relevante. O que precisa mudar é o que se espera dele. Antes de aprovar o próximo orçamento de marketing, vale reservar um espaço na conversa com sua agência ou time interno para essa pergunta específica: como estamos medindo e buscando visibilidade num cenário em que ranquear bem já não garante ser visto?
Fontes
- Ahrefs: AI Overviews Reduce Clicks by 34.5%
- Search Engine Land: New data: Google AI Overviews are hurting click-through rates
- Search Engine Journal: Google AI Overview Citations From Top-Ranking Pages Drop Sharply
- ALM Corp: Google AI Overview Citations From Top-10 Pages Dropped From 76% to 38%
- Pew Research Center, estudo de março de 2025 sobre comportamento de clique em buscas com AI Overview
- Gartner: 2026 CMO Spend Survey
- Dados de prevalência de AI Overviews e comportamento por tipo de busca (Semrush/Datos, janeiro de 2026)
